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  O lado obscuro
Um dos autores que contribuiram para a renovação da actual literatura juvenil galega

CARTAS DE INVERNO
Agustín Fernandez Paz (texto)
José Pedro Costa (ilustração)
Contemporânea, 1998, 94 págs., 840$00
NASCIDO em 1947, em Lugo, Agustín Fernandez Paz é um dos autores que mais têm contribuído para a renovação da literatura juvenil galega. Em termos de género, Cartas de Inverno, a sua novela traduzida para português, dirige-se a adolescentes e adultos e caracteriza-se por duas orientações modais. No plano da construção textual, insere-se no género da narrativa epistolar, sendo o seu núcleo principal constituído pelas cartas dirigidas pelo pintor Adrián ao seu amigo Xabier, escritor, e pela missiva que este, por sua vez, envia à irmã, Tareixa, antes de desaparecer; dois capítulos enquadradores - um no início e outro no final - dão voz a um narrador exterior à acção, que conta a infrutífera procura de Xabier empreendida por Tareixa.

No plano do mundo ficcionado, Cartas de Inverno é uma narrativa fantástica, construída com uma mestria que nos prende ao texto e nos obriga a avançar febrilmente na leitura até chegarmos às cenas finais.


No centro do enredo encontra-se uma casa enfeitiçada, sedutora, que no entanto esconde numa cripta enigmas, ameaças, seres terríveis, os quais exercem, primeiro sobre Adrián e depois sobre Xabier, um misto de fascínio e de terror a que nenhum deles será capaz de escapar. A vertigem da leitura, que encontra paralelo na vertigem inquiridora das próprias personagens, é propiciada pela sabedoria narrativa de Agustín Fernandez Paz, isto é, pelo modo como articula uma narração por assim dizer tradicional com a que é feita através das cartas de Adrián, por sua vez enquadradas pelo texto de Xabier. Todos os três discursos evoluem no sentido de um crescendo de emoção provocado pelos eventos narrados, crescendo esse que é pontuado por efeitos de «suspense» estrategicamente colocados no final de cada carta ou de cada capítulo. Refira-se ainda que a ambiência fantástica assenta também no aproveitamento de aspectos marcantes da paisagem galega, como a névoa, a proximidade do mar, os velhos solares de estilo colonial, os torreões ou as ruínas de castros celtas povoadas de lendas.

Respeitando as convenções do género, a narrativa (cuja genealogia literária nos remete para Poe, Kafka e Lovecraft) é até certo ponto inconclusiva quanto ao destino de Xabier e Adrián, apenas sugerindo a sua passagem para uma outra dimensão da realidade, possivelmente em coerência com a sua condição de artistas e invisível para o comum dos mortais mas anunciada por uma gravura cuja imagem se vai alterando, como que em comunicação permanente com os observadores. É sintomático que esta gravura se encontre num livro, que assim nos é apresentado como mediador entre os que vivem de forma mais ou menos normal e as forças ocultas que se acoitam do lado de lá do real - como se os livros e a arte nos abrissem portas de acesso ao outro lado de nós mesmos, esse lugar obscuro que tanto nos atrai como nos inspira medo. Nesta óptica, Cartas de Inverno poderia ser lido como uma parábola sobre o poder dos livros ou como um convite para não nos deixarmos iludir com a unidimensionalidade do pequeno mundo que o nosso olhar alcança.

JOSÉ ANTÓNIO GOMES



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Última actualização em 2/3/99 às 15:02:54.
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